16 maio 2007

LENDAS DO MAR

Os alunos do 3º ano da professora Céu gostaram muito do livro LENDAS DO MAR, de José Jorge Letria e fizeram bonitas ilustrações:

O REINO DAS SETE ONDAS
Era uma vez um grande reino cujo poderio fora conquistado ao mar, em viagens e intermináveis batalhas. O rei era senhor de tudo o que se avistava sobre a terra e sobre o mar, e mesmo aquilo que não se via e apenas podia ser imaginado também lhe pertencia.
Com o tempo, foram desaparecendo os seus inimigos e adversários e, com eles, os objectivos a atingir e os sonhos a realizar. Quanto mais poderoso o rei se sentia, mais só ficava, e isso entristecia-o e deixava-o melancólico e distante.

- Por que razão anda o rei tão triste, se tudo lhe corre às mil maravilhas? - era a pergunta mais insistente na boca dos seus conselheiros de maior confiança, mas ninguém tinha resposta para ela.
- A tristeza enevoava os seus olhos e afastava-o de tudo o que tivesse a cor ou o som da festa. Um dia, o rei mandou apresentar-se nos seus aposentos a feiticeira Maresia, que tinha cabelos de algas e olhos cor de pérola e que ninguém sabia de onde viera e quantos anos tinha, e quis saber:
- Que futuro me espera? Que destino tenho ainda para cumprir?
A feiticeira que chegara um dia àquele reino longínquo, vinda das bandas do mar, lançou búzios e conchas sobre uma toalha bordada a oiro e depois, serenamente, respondeu-lhe:
- Majestade, tudo o que tínheis para fazer como missão e como destino já está feito. Resta-vos agora gozar a vossa riqueza e as vossas grandes conquistas e, como a vossa vida vai ser muito longa, sentai-vos no vosso trono a olhar para o mar, pois só dali poderá vir alguma surpresa que vos distraia e entretenha.

- Mas, agora que acabaram as batalhas no mar e as lutas na corte – contrapôs o rei -, eu sinto uma grande melancolia, pois nada mais tenho para fazer, e até o mar é calmo e plano como um espelho feito de águas imóveis.
A feiticeira Maresia, que sempre vira o rei como um homem de acção, cheio de energia e de entusiasmo, percebeu a sua inquietação, pois era disso mesmo que se tratava. O rei era um homem inquieto que não fora feito para passar os dias a olhar para o mar onde nada se movia, nem sequer os barcos guerreiros, agora ancorados por falta de batalhas. Foi então que Maresia teve uma ideia tão brilhante quanto inesperada. E transmitiu-a ao rei:- Majestade, vou ordenar ao grande albatroz-real que mande a sua fêmea esvoaçar sobre as águas do mar.
- E de que modo é que isso pode alterar a monotonia dos meus dias? – quis saber o rei, sempre inquieto e perguntador.
- - Providenciarei – disse a feiticeira – para que a fêmea do albatroz-real ponha sete ovos no mar. Eu lançarei sobre esses ovos a minha poderosa magia, que é filha da magia mais antiga que o homem conhece. E, em breve, vereis o resultado deste meu plano.

Maresia recolheu à sua torre, à qual ninguém mais tinha acesso, e preparou tudo, de forma a satisfazer os desejos reais. No dia e na hora combinados, que tinham de obedecer às leis do Sol e da Lua, a fêmea do albatroz-real levantou voo e, com uma precisão matemática, depositou sete ovos no mar muito azul e imóvel. Sentado no seu trono, virado para a imensidão das águas, o rei ficou à espera que alguma coisa acontecesse. Se tudo ficasse exactamente como estava, não tardaria a pedir contas à feiticeira, até aí impecável no cumprimento das suas promessas mágicas.

No dia seguinte, ao acordar, o rei levantou-se e foi olhar para o mar.
Surpreendido, viu-o agitado e com um estranho movimento. Chamou então a feiticeira e perguntou-lhe:
- Está assim cumprida a tua promessa?
- Está majestade. De cada ovo posto nas águas pela fêmea do albatroz-real nasceu uma onda. Desse dia em diante, as ondas vieram rebentar no areal em ciclos de sete, e esta magia manter-se-á até ao fim dos tempos.

E assim era, de facto. Todos os dias, o mar se movia na direcção da fortaleza real em ciclos de sete ondas. O rei, liberto das preocupações e dos conflitos, sentava-se no seu trono adornado com conchas e pedaços de madrepérola e contava as ondas uma a uma, até que o sono o vencesse e o obrigasse a recolher ao seu leito erguido sobre quatro pequenas colunas de coral.

A feiticeira recebeu como recompensa pela sua engenhosa magia uma ilha cheia de fontes e de árvores frondosas, e nunca o mar quebrou o ritmo das sete ondas a rebentarem na brancura do areal.
Quando, muitos anos depois, o rei morreu, o seu imenso território ficou conhecido nos livros dos cronistas pelo nome de Reino das Sete Ondas.

Sem comentários: